O menino velho

UM MENINO VELHO

Muitos golpes nos atingem. Outros não. Quantas pessoas passaram indiferentes diante da notícia no Jornal Estadão do dia 01/09/2016? Foi no dia seguinte. Está em http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,morador-de-pinheiros-vive-25-anos-mais-que-o-de-cidade-tiradentes,10000073357 – Estes acontecimentos dramáticos são passageiros. Por quê? Foi perguntando assim que a releitura de texto de Manuel Rivas provocou este texto:

UM MENINO VELHO

Já estou na escola e fiquei pensando em escrever com a letra de um velhinho. Pensei em escrever para o neto que ainda não tenho. Fiquei encantado com a ideia de brincar de faz-de-conta.

Mas foi só falar disso para outro menino e o encantamento virou fumaça e água suja. Sujou.

Por que será que o menino duvidou? Se eu consegui nascer, por que é que eu não vou conseguir envelhecer?

Se entendi bem, ele disse que nascer é fácil e envelhecer é difícil.

Mas, primeiro descobri que nascer não é fácil.

Fiquei espreitando minha mãe nas conversas que criança não pode escutar. Ela disse que a barriga dela atrapalhou muito. E isso foi quando eu estava lá dentro. Disse que ali, na Cidade Tiradentes, em São Paulo não era lugar pra nascer menino, nem menina.

Fiquei espreitando também quando ela falou do menino que ela viu nascer. Foi na casa em que ela trabalhava, lá no Alto de Pinheiros. Disse que foi numa piscina a 36 graus de temperatura. E o bebê veio flutuando, como num sonho. O cordão umbilical que liga o real com a imaginação, foi cortado. A criança, que era um conto, virou realidade. Alguém desenhou um lindo quadro com jardins, cores, casa e flores. E quando cortaram o cordão umbilical, a imaginação também virou realidade.

Meu pensamento voltou para o menino que duvidou de minha velhice.

Tanto ele como eu nunca fomos um conto. Já pertencemos à realidade antes de nascer. Já somos um problema. Ali onde moramos, uma mulher grávida é olhada como um saco de problemas. Mas penso que minha mãe se sentia carregando um saco de fava que é um feijão colorido e grande.

No meu bairro também tem gente que desenha. Os meninos pintam sustos no papel e nos muros. Quando cortam o cordão umbilical dos nenês os sustos viram realidade. E aí, aparecem muitas botas que pisam as sementes.

Discordo do menino que duvidou de mim. Discordo quando ele falou que é fácil nascer.

É fácil nascer em outro lugar, mas aqui não é fácil, não.

Eu gostei de nascer, mas preferia esperar pra quando ninguém mais desenhasse sustos.

Agora… talvez o menino que discordou de mim tenha razão na segunda parte: envelhecer é difícil.

Mas eu queria escrever para um neto, pelo menos para ele saber que há os que plantam feijão e os que pisam as sementes.

Não sei se vai adiantar, mas resolvi escrever foi porque quero cortar o cordão umbilical entre o meu sonho e a realidade.

Meu desejo de envelhecer ainda continua, mas será que vai dar tempo de cortar o cordão umbilical na hora certa?

Fiquei pensando nisso, porque fiquei espreitando minha professora lendo o jornal hoje. Ela leu alto que os moradores da Cidade Tiradentes, e eu também, vão viver 25 anos menos do que os moradores do Alto de Pinheiros.

Será que isso é um conto ou já cortaram o cordão umbilical?

 

Salvador/01 de setembro 2016

Texto baseado em fatos reais e nas inspirações de Manuel Rivas

Cf.AA.VV. As vozes do espelho. SP Ed.Espelho Brasil, 2001, p.62                                                                          

O MENINO E O MUNDO 2

ANTROPOÉTICA DA INFÂNCIA

“Era ele quem erguia casa, onde antes só havia chão.

Como um pássaro sem asas, ele subia com as casas que lhe brotavam da mão.

Mas, tudo desconhecia de sua grande missão. Não sabia… Não sabia… Não sabia…

Mas um dia, foi tomado de súbita emoção…

E cresceu em alto e profundo, em largo e no coração…

E olhando suas mãos… ganhou a dimensão da poesia…“ (Vinicius de Moraes)

 

O menino e o mundo se encontram.

A infância com sua subjetividade nascente, com sua novidade inquieta, encontra-se com o mundo instituído, com normose social, com as violações institucionalizadas, com a prosa da dominação apagando a poética da vida.

Mundo estranho este. “O deserto avança” (Nietzsche). Em lugar da expansividade da vida, avançam processos de morte.

E aqui estamos nós, cidadãos e cidadãs do mundo, que decidimos pelo campo da educação e vamos traçando, neste nosso território, a destinação da humanidade.

Apenas começamos o chamado segundo milênio. Nascidos na modernidade, preparamos as asas para os vôos da pós-modernidade. Será um desvio em direção aos horizontes de humanização ou será a continuidade da exploração-destruição aceitas como naturais? Assim perguntam os olhares do menino sobre o mundo.

Será este um século de barreiras e destruição ou de horizontes e criação?

As tempestades assustam, mas a coragem prepara o enfrentamento. Estamos num momento da humanidade tão aberto à beleza e ao mesmo tempo coberto de vergonhosas atrocidades.

Numa humanidade permeada de sujeições, escravidão, dominações sobra pouco espaço para a emergência das pessoas e dos povos.

Quem não acompanha e não ouve a voz silenciosa e competente da infância, fará da educação um arranjo sofrível, um arremedo de pedagogia, um insulto à sabedoria que teima em vir ao mundo com outros olhares e outros recados.

 

O MENINO E O MUNDO:

UM ENCONTRO-CONFRONTO EM BUSCA DA SOLIDÁRIA REBELDIA

 

Para quem ainda não entendeu a diferença entre Ética e moral, aqui está: a vida pode tornar-se instituinte da sociedade, pode tornar-se critério de todos os critérios. O mundo instituído só consegue lidar com a moral e suas armadilhas, ao confundir o vigente com o legítimo.

É por isso que a criança passa invisível por este mundo de ouvidos atrofiados. Para o relevante diálogo com a infância há que garantir sua presença, seu recado, suas perguntas, seu olhar.

“Seu olhar, seu olhar melhora, melhora o meu” (Arnaldo Antunes)

O outro não pode ser anulado na sua possibilidade de existência material. O outro não pode ser anulado em seu potencial de expressividade simbólica. Há que construir  os espaços para a pronúncia da palavra que se faz carne e habita criativamente o mundo.

Se as palavras livres da infância vão sendo anuladas com a arrogância do excesso das palavras domesticadoras dos adultos, os olhares teimam em manter a liberdade provocativa.

O menino e seu mundo acordam os antigos meninos e seus mundos, por vezes adormecidos no sono do esquecimento, nas indestrutíveis, mas sufocadas, moradas da infância.

Como diz Fernando Pessoa.

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ver quem sou.

Mas, hoje, vendo que o que sou é nada,

quero ir buscar quem fui onde ficou”.

 

Não é este o tema do Rei Leão? Em dado momento, Simba acorda de sua desmemoria, percebe a norrmose paralizante e retoma seu projeto.

Não é este o tema da Africanidade hoje?

salvador/2016

 

O MENINO E O MUNDO

UMA POÉTICA DOS OLHARES E DOS DIREITOS EM TEMPOS DE ATROCIDADES NORMALIZADAS

Alê Abreu faz cuidadosa leitura do mundo e da infância

Quem conhece as obras do pensamento crítico da Escola de Frankfurt no século XX se surpreende com a capacidade de dizer sem palavras o que escreveram em centenas de livros pensadores com Adorno, Horkheimer, Marcuse, Walter Benjamin, Ernest Bloch…

Num pequeno opúsculo inaugural de Theodor Adorno e Max Horkheimer, Dialética do Esclarecimento, encontram-se provocações que dialogam com Alê Abreu:

– “É o progresso bem sucedido e não o seu contrário, o que traz a barbárie. Como é possível que, no auge da civilização, com as mais sofisticadas tecnologias, tenhamos as mais graves atrocidades e a produção da indústria cultural da insensibilidade?

Alê Abreu coloca, como fez Walter Benjamin, a fragilidade (infância) para compreender a perversidade travestida de normalidade.

O tema moral das pessoas más, igualmente presentes em todos os setores da sociedade, é tema fácil e abundante na indústria cultural anestesiadora: Existem os maus e os bons. Nós somos os bons e os outros são os maus. Como todos pensam assim… maus são sempre os outros que atrapalham nossos projetos! Maus são os moradores de rua, são os sem-terra, são os manifestantes, são comunistas, são os sindicatos, são os dos Fóruns Sociais Mundiais, são os lutadores e lutadoras pelos Direitos Humanos. Maus são os outros que contestam as ilusões transcendentais do progresso, do mercado…

Alê Abreu vai pelo caminho da Ética. Não é o caminho da Moral instituída. A Moral instituída é vigente e necessária, mas insuficiente para garantir a vida humana como critério. A Ética é sempre reserva crítica face à perversidade instituída e pretensamente legítima. A Ética é Ética da Vida, é a suspensão de toda a estabilidade que impede a expansividade da vida do outro. A voz do outro atingido pelas barragens do mundo já pronto (não só da Samaraco), é critério Ético que Alê Abreu propõe no olhar do Menino diante do Mundo.

Para esta tarefa ÉTICA, o caminho da ESTÉTICA é o mais fecundo.

Há que tomar não só o pensamento, a racionalidade, mas o sentimento, o afectus, a arte, o imaginário criativo. É no interior desta linguagem poética que Alê Abreu transita.

Não se trata de uma estética-espetáculo (Guy Debord).

Não se trata da obra de arte que proclama: “espelho, espelho meu, existe algo mais belo que eu?”.

Trata-se da arte conectada com a vida.

Trata-se da arte que nos pega.

Trata-se da mobilização da sensibilidade humana, da provocação das subjetividades para se deixarem tocar.

Trata-se de despertar homens e mulheres para a vivência intensa do mundo.

Trata-se da poética-pedagógica das pedras, dos rios, das cores, dos amores, das palavras, dos gestos, das estrelas, dos abraços, dos movimentos, dos traços, dos mistérios, dos projetos, dos olhares, das parcerias, das revoluções, dos sonhos, da música, das ancestralidades, do vir a ser comunitário.

Este é um sentimento perigoso que não rima com os olhares condenatórios, com o saberes dogmáticos, com os fazeres dominadores, próprios da racionalidade arrogante.

Alê Abreu brinca nos limites da razão, à beira dos abismos perigosos, arrepiando-se com os riscos, descoisificando a estabilidade do mundo.

Sigamos os traços criativos deste menino brincante.

salvador/2016

Liberdade é um jogo

Estamos lançados no jogo da vida. A dinâmica complexa em que vamos sendo inseridos com nosso crescimento e participação no mundo, nos apresenta regras e nos desafia à criação.

A tessitura da história humana é feita com fios do imponderável e fios das certezas, fios do dinamismo e fios da estabilidade, fios da novidade e fios da ancestralidade, fios do inusitado e fios do previsível.

A liberdade é uma condição inescapável e o seu exercício qualifica a vida humana. Ao lançar-se numa ação, o ser humano toma seu projeto e busca inseri-lo nos rumos que a história vai tomando. O mar que o navega exige dele, como timoneiro, que dê sua provisória direção. Navegar à deriva ou viajar sem deriva são duas formas de tentar escapar da responsabilidade contextual da autonomia criativa. Perde-se a grandeza da liberdade e perde-se a beleza do ser humano.

Nos encantos do jogo superamos as rígidas fórmulas e os caos destrutivo.

Arte e eco ternura

Na convivência com o outro vamos tecendo nossa sensibilidade ética e estética. O que é bom e o que é belo vão enchendo de encantamentos os tempos e lugares em que transitamos com nossos sonhos, nossa palavra, nossa expressividade, nossos desejos, nossa autoria, nossa autonomia.  Enquanto parte da humanidade se parte centrada no indivíduo com sua gana excludente, de outro lado os braços, os olhares, os abraços e os cantares produzem o nós, tramam a comunidade, inventam a solidariedade.

A palavra, a pintura, o jogo, a escultura, os contos, a música, o texto, o saber, as vivências coletivas, a dança, a poesia, a dramaturgia, as imagens, a pedagogia, a política, a celebração, o movimento, o encontro, a culinária, os jardins cultivados, os estudos nos grupos, a assessoria, as ervas compartilhadas… quantos acontecimentos! Quanta plural beleza. Das janelas da arte, da estética, da beleza, apreciamos a realidade com outros olhos. A beleza comunitária nos humaniza. Olhos educados à beleza, corpos lançados à arte, criam a percepção de tal dimensão em todas as coisas.

Nossa sensibilidade exercitada na convivência com o outro tem fome de beleza, quer sentir a arte, quer viver artisticamente, quer ser tocada com ternura, quer tocar as estrelas, quer experimentar a mais cotidiana e profunda compaixão com a fragilidade humana.  O pluralismo das expressões tem sido a marca de muitas práticas de educação popular na vivência do Ecumenismo, do Diálogo Inter-religioso, nas temáticas, nas vivências celebrativas, nos estudos, nas modalidades artesanais, na partilha de experiências, na construção coletiva, nos serviços, na acolhida, na emancipação da palavra e do gesto… ampliam-se mais e mais as interfaces do acontecimento estético formativo. O corpo vivente da sabedoria humana não está contido em nenhuma linguagem e nenhuma linguagem em particular é capaz de exprimir todas as modulações e intensidades da compreensão humana[1]

Cada expressão do viver-saber pode dizer com Ferreira Gullar: “Se não existisse a poesia, as grandes verdades não poderiam ser ditas”. Se não existisse a pintura, o teatro, o cinema, a dança, o beijo, o abraço, o intercurso sexual amoroso, os segredos da intimidade, o brinquedo, a pedagogia, a festa, as cores, as rezas, os ritos, os símbolos, os encontros, as subjetividades transitantes, os olhares, a música e tudo assim tão misturado…Se não existisse toda essa mediação da beleza, os grandes significados não poderiam irrigar e fertilizar a vida humana. Cada expressão, porém não pode pretender anular as outras, sob o risco de atrofiar a exuberância da vida-arte.

Assim a prática coletiva dos Cursos da Rede do Cuidado é uma expressão artística atravessada pela vida da comunidade humana em solidariedade criativa. A partir de uma estética da comunicação torna-se possível pensar uma ética cidadã. Um pouco de tudo isso vivemos na incerta, arriscada e desafiadora história deste planeta no início do século XXI.

E quando partimos, de volta para nossos outros mundos, vamos deixando companheiros, experiências, modos de celebrar, amores, ambientes, palavras de sabedoria, canções e danças contagiantes, sabores, lares, abraços, acolhimentos. Antes que o horizonte do acontecimento vivido desapareça, ainda esticamos o olhar para trás. Na dor da ruptura, aprendemos o desprendimento e assumimos o risco dos novos caminhos. Produzimos agora os caminhos com as presenças que nos lançam: não somos mais só nós, mas somos um com tantos irmãos e irmãs de caminhada. Nesta poética, mudamos até a gramática da regência: eu estamos em movimento solidário. E já a construção do mundo ganhará as dimensões do ser humano novo, apontará para o amanhecer de um mundo justo. A construção de um mundo novo será enraizada na esperança que é mais forte que os riscos. Como viver é impreciso, traçamos novos itinerários Continuamos os caminhos que outros não puderam terminar. E nós também só podemos ver a aurora dos novos tempos, na arte da provisoriedade fecunda.

 

[1] POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, 1998,p.38

O rosto, a ternura e os caminhos

 

De onde vem a disposição de contrapor os afetos, em sua fragilidade gratuita, aos ditames poderosos da eficiência mercantil?

Vem do amor que se deixa comandar pelo rosto do outro e que não se sustenta vitorioso nem na experiência e nem nas teorias. O rosto do outro se dispõe, em sua nudez, à violação e ao acolhimento. Aqui está a prova de fogo do amor. Dostoievski diz que “somos todos responsáveis por todos, e eu mais do que todos” (os irmãos Karamazovi). Este desafio à responsabilidade é a marca infinita do amor diante do outro, que só desenha sua obra de arte em nós quando descemos de nosso poder de poder, de nossa soberania arrogante, de nossas torres de controle.

O amor, terno e rebelde, não tem a força do poder que domina e domestica, mas tem a fecundidade geradora de mundos novos. O sem-poder do amor produz a vida que a força do poder não pode jamais criar.

O amor abre caminhos, coordenando passos construtivos, e dispersando passos destrutivos. O amor vitaliza o pensar, o caminhar, a arte, o movimento, o trabalho, os debates e embates, não aceita a condenação e processos acusatórios, mas coloca-se na produção da liberdade, da fraternidade, da justiça, do aprimoramento pessoal e comunitário, da solidariedade sem fronteiras. O amor nos encaminha para a plenitude de nossas melhores aspirações.

Para esta bio-diversidade afetiva que somos, há que escutar muito, superar intransigências, romper intolerâncias, modular convicções. Mente e coração precisam conversar melhor. Há que buscar uma lucidez amorosa, especialmente quando os desacertos da vida ameaçam desencadear tempestades. Para que os apelos à sensibilidade afetiva não se transformem apenas em amortecimentos ilusórios dos conflitos, mas garantam uma permeabilidade fecunda, há que pensar amorosamente.

Amor e arte: uma erótica desinstaladora

O amor vibra desde as entranhas ou será apenas um nome bonito para o consumo dos discursos vazios. Ouvir as vibrações da vida do outro é contagiar-se por sua alegria e seu itinerário buscante.

O amor é atraído e atraente. Ele exerce irresistível sedução sobre a humanidade. Onde há amor, há força atrativa. Onde há amor, há inquietação, deslocamento, busca. Por esse motivo, Eros é a possante energética da destinação antropológica. (…) Venha a paixão erótica que impulsione o ser humano a criar nova terra e novo céu. Só a humanidade apaixonada poderá concretizar a destinação antropológica. Paixão não é instinto cego ou desvairado. Nem é irracionalidade. Paixão é a veemência do amor inteligente que encabeça nova fase evolutiva, destinada a elaborar mundo igualitário e solidário, onde o Ser Humano seja, efetivamente, centro, fim e medida. Seja a humanidade incendiada por paixão erótica que consiga suprimir o fosso das desigualdades, derrubar os ranchos da servidão e fertilizar as colinas, onde manam a justiça e a paz.” (Arduini, Juvenal. Destinação Antropológica, São Paulo: Paulinas, 1989, p.266)

Ouçamos os sons do presente e dos projetos. Ouçamos os sons dos medos e das esperanças. Misturemos tudo e transformemos num poema. Aí, em comunhão, podemos comer juntos os dons criativos, como sacramento da vida terna e eterna.

Estamos, porém, invadidos pela mercantilização da vida que agride a dignidade, a erótica e sacralidade da natureza e da humanidade. Há que contestar o uso e abuso da palavra amor, como tentativa de lhe roubar a rebeldia. Encontramos por aí, o amor capturado, o amor domesticado, o amor narcísico ao idêntico, o amor de troca que exige gratidão e cobra retorno previsível. E este anti-amor conturba e contamina os afetos. O amor não é esta falsidade revestida de cenários midiáticos e cálculos de vantagens.

No contraponto da hegemonia dos cálculos de utilidade, aqui estamos nós compondo e percorrendo novos e antigos caminhos da gratuidade relacional. A afetividade ética e esteticamente responsável, lida com os saberes e as artes na temperatura da vida e tensiona as teias da sociedade para práticas transformadoras recusando a captura do campo do amor pela sociedade do espetáculo, pela esperteza utilitária, pelo mau gosto dos abusos da imagem e pela afirmação narcísica das vaidades pessoais. O amor que desencadeia afetos verdadeiros acontece no risco da aventura e enfrenta as voltas e reviravoltas da barbárie.

A itinerância e a teimosia nos fazem buscar outros territórios da subjetividade, transitar por outras florestas da plural diversidade, libertar o coração das capturas do imaginário, promover ações subversivas dos desejos e inaugurar campos novos da existência social.

Os afetos clamam por espaço, reclamam por uma abertura do humano em face da mortífera injustiça instituída.

Lucidez e erótica

Uma sociedade intolerante não se constitui apenas porque o cérebro tornou-se inflexível nas idéias. A intolerância invade os campos da afetividade e desafia os limites do diálogo quando se pretende um esforço apenas racional.

Em geral, entende-se diálogo como fenômeno apenas intelectual. É o diálogo da palavra, do conhecimento, da ciência. Mas esse diálogo é restringente. Além do diálogo lógico, há o diálogo erótico. O diálogo erótico manifesta-se no amor, nos sentimentos, na amizade, na solidariedade, no prazer, na sexualidade. O diálogo lógico raciocina, fala, argumenta. O diálogo erótico é presença amorosa, silêncio atento, encontro interpessoal. Muitas discussões racionais e acusações irracionais teriam soluções mais humanas e menos cruéis, com a prática do diálogo erótico. O cruzamento dos diálogos lógico e erótico provoca o pensamento emocional e a afetividade racional, a ciência sensível e a sexualidade sábia. Aí está perspectiva sedutora que nos convida a cultivar a inteligência amorosa e o amor inteligente. (Juvenal Arduini)

O amor tem incidência social, ecológica e política. Nas tramas da afetividade tornam-se consistentes as práticas históricas com seus contornos artísticos, eróticos, pulsionais, prazerosos. A amorização dos revolucionários desencadeia ternura em plena luta, suscita tenacidade para arrancar com carinho das cruzes os crucificados da opressão, para oferecer o colo aos caídos e erguer em dignidade os anulados da existência.

Sem amor pode-se conhecer o mundo, saber sobre os mapas das instituições, do corpo, da alma ou das ideologias, mas não se poderá criar novos tempos, novos itinerários, novos contornos, novos rumos, mundo novo.

Sem amor pode-se traçar as melhores técnicas da escrita, mas não se poderá escrever uma nova história humana.

Sem amor pode-se treinar professores e profissionais, mas não conseguirá uma pedagógica da libertação autoral.

Sem amor pode-se traçar a arte mais contemporânea, mas não se forjará um povo como obra de arte.

Sem amor pode-se fazer a música mais perfeita, mas não se ouvirá com encanto a canção do povo de todo canto.

Sem amor poderá haver uma instituição perfeita, mas serão abortadas a participação construtiva.

Quem ama olha em frente e busca conduzir o destino, construir mundos novos, deixar muita gente plena de alegria.

Arte: diante da verdade verdadeira

Verdade, bondade, beleza e harmonia da unidade são referências presentes em tudo o que vivemos, fazemos, cantamos, sonhamos, traçamos, elaboramos, sofremos, buscamos, transformamos.

O que é verdadeiro virou sinônimo do que é exato, do que é comprovável, do que é científico. O que é verdadeiro é aquilo que vira informação para acumular, que cala a boca dos que não sabem. O que não é cientificamente verdadeiro é desqualificável. Só vale o jogo da ciência com imposição de suas regras dogmáticas.

Dizem que a mentira e o pouco conhecimento são inimigos da bondade, da beleza e da unidade. Pode ser. Às vezes. Fernando Pessoa tem alguma discordância e traz a não-verdade verdadeira para contestar a verdade verdadeira que quer reinar absoluta, para subverter as visões iluminadas que, com tanta luz, cegam.

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor,

A dor que deveras sente.

O poeta nos instiga a pensar que talvez, na história ocidental, tenha sido o tipo de verdade, a verdade absoluta, a verdade que se basta, a verdade que não dialoga com o sentido da vida, a verdade separada da própria vida, o que impediu a fluidez da arte, do amor, da justiça e do direito para toda a fragilidade humana e cósmica. O excesso de verdade virou arrogância contra as frágeis existências buscadoras dos encantamentos relacionais.

A experiência poético-espiritual de Pedro Casaldáliga o faz reconhecer que as irmãzinhas de Jesus que viveram desde a década de 1950 entre os poucos indígenas Tapirapé, praticamente em extinção, foi a inspiração para o atual avanço de toda a luta indígena no Brasil: “nascemos à sombra luminosa das irmãzinhas de Foucault”.

No entanto, há uma hegemonia crescente da iluminada imperialização da cultura: tudo virou coisa para examinar, números para contabilizar, informações para impor, medidas para controlar, sistemas para dominar.

“Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. Os sabiás divinam”. É o alerta do poeta Manoel de Barros, um brincante com as palavras. Verdade, bondade, beleza e integridade da criação precisam se encontrar, confrontar-se, conversar, implicar-se, com muitos jogos. Não valem só as regras da verdade.

Os artistas que emergem de dentro de nós e dos povos nos convocam a mudar as regras, flexibilizar os jogos que derrubam os fracos, os jogos que tornam os humanos apenas úteis, os jogos que escondem destruições atrás da imposição de suas verdades absolutamente verdadeiras.

O que é a verdade? O que é o verdadeiro?

Eros e a liberdade solidária

O amor não é da ordem do olhar para aprisionar, mas é do dinamismo da parceria para criar. Eros é princípio de vida que não paralisa mas acontece na irrupção da generosidade mobilizadora. O amor não é domesticável, pois se rebela diante das servidões, vem abolir toda a escravidão e não apenas amenizar as feridas e torná-las suportáveis.

No Brasil colônia, os senhores usavam sexualmente as escravas, mas evitavam afeiçoar-se a elas, com receio de que o amor os levasse a emancipá-las da escravidão. ‘O amor, de per si, repele a escravidão’ diz o historiador José Oscar Beozzo. O amor ensina a ser livre e a libertar os outros.(in Juvenal Arduini. Antropologia, ousar reinventar a humanidade, São Paulo: Paulus,2002, p.116).

O amor não se acanha, pois Eros é expressividade. Assim o ser humano comparece inteiro na vida social, na trajetória de sua família, nos caminhos de sua comunidade. Com toda sua dimensão erótico-vital, com toda sua paixão, com sua arte, o ser humano apresenta-se ao mundo em vibrante liberdade solidária.

Para que a humanidade conheça outro tempo e viva situações de ampla alegria com muitos lugares à mesa comum, com o aconchego dos lares e dignidade do trabalho, há que recolher as melhores idéias, mas acionar o melhor do amor, o Eros indomesticável capaz de direcionar o destino da comunidade para que todos e todas ampliem seu campo de expressividade.

Assim, buscamos novas modulações da vida, dos nossos programas de ação, das nossas iniciativas. E é preciso pensá-las bem, para que sejam entendidas e admiradas. Mas não basta. É preciso que sejam amadas, já na sua elaboração e ainda mais na travessia.

A aurora desse eros comunitário desencadeia o fazer coletivo e amoroso que já está aí. O sol sai pelos olhos e aquece os corações, e não apaga as estrelas, que sabem brincar de esconder e revelar seu brilho. E as flores abrem suas cores e formas, seu perfume e beleza encantando corpo e alma com sua presença e com a promessa das sementes e dos frutos.

O amor nos une neste momento para que nossas mãos tomem a corda. É hora de retesar o arco da nossa prática de educação popular. Com nossas mãos na corda retesada, com o arco firme e flexível, com o destino nos olhos do conhecimento e no horizonte da ação, preparamo-nos para lançar a flecha do futuro que desejamos em mutirão.

 

Salvador/2016