O menino velho

UM MENINO VELHO

Muitos golpes nos atingem. Outros não. Quantas pessoas passaram indiferentes diante da notícia no Jornal Estadão do dia 01/09/2016? Foi no dia seguinte. Está em http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,morador-de-pinheiros-vive-25-anos-mais-que-o-de-cidade-tiradentes,10000073357 – Estes acontecimentos dramáticos são passageiros. Por quê? Foi perguntando assim que a releitura de texto de Manuel Rivas provocou este texto:

UM MENINO VELHO

Já estou na escola e fiquei pensando em escrever com a letra de um velhinho. Pensei em escrever para o neto que ainda não tenho. Fiquei encantado com a ideia de brincar de faz-de-conta.

Mas foi só falar disso para outro menino e o encantamento virou fumaça e água suja. Sujou.

Por que será que o menino duvidou? Se eu consegui nascer, por que é que eu não vou conseguir envelhecer?

Se entendi bem, ele disse que nascer é fácil e envelhecer é difícil.

Mas, primeiro descobri que nascer não é fácil.

Fiquei espreitando minha mãe nas conversas que criança não pode escutar. Ela disse que a barriga dela atrapalhou muito. E isso foi quando eu estava lá dentro. Disse que ali, na Cidade Tiradentes, em São Paulo não era lugar pra nascer menino, nem menina.

Fiquei espreitando também quando ela falou do menino que ela viu nascer. Foi na casa em que ela trabalhava, lá no Alto de Pinheiros. Disse que foi numa piscina a 36 graus de temperatura. E o bebê veio flutuando, como num sonho. O cordão umbilical que liga o real com a imaginação, foi cortado. A criança, que era um conto, virou realidade. Alguém desenhou um lindo quadro com jardins, cores, casa e flores. E quando cortaram o cordão umbilical, a imaginação também virou realidade.

Meu pensamento voltou para o menino que duvidou de minha velhice.

Tanto ele como eu nunca fomos um conto. Já pertencemos à realidade antes de nascer. Já somos um problema. Ali onde moramos, uma mulher grávida é olhada como um saco de problemas. Mas penso que minha mãe se sentia carregando um saco de fava que é um feijão colorido e grande.

No meu bairro também tem gente que desenha. Os meninos pintam sustos no papel e nos muros. Quando cortam o cordão umbilical dos nenês os sustos viram realidade. E aí, aparecem muitas botas que pisam as sementes.

Discordo do menino que duvidou de mim. Discordo quando ele falou que é fácil nascer.

É fácil nascer em outro lugar, mas aqui não é fácil, não.

Eu gostei de nascer, mas preferia esperar pra quando ninguém mais desenhasse sustos.

Agora… talvez o menino que discordou de mim tenha razão na segunda parte: envelhecer é difícil.

Mas eu queria escrever para um neto, pelo menos para ele saber que há os que plantam feijão e os que pisam as sementes.

Não sei se vai adiantar, mas resolvi escrever foi porque quero cortar o cordão umbilical entre o meu sonho e a realidade.

Meu desejo de envelhecer ainda continua, mas será que vai dar tempo de cortar o cordão umbilical na hora certa?

Fiquei pensando nisso, porque fiquei espreitando minha professora lendo o jornal hoje. Ela leu alto que os moradores da Cidade Tiradentes, e eu também, vão viver 25 anos menos do que os moradores do Alto de Pinheiros.

Será que isso é um conto ou já cortaram o cordão umbilical?

 

Salvador/01 de setembro 2016

Texto baseado em fatos reais e nas inspirações de Manuel Rivas

Cf.AA.VV. As vozes do espelho. SP Ed.Espelho Brasil, 2001, p.62                                                                          

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