O MENINO E O MUNDO 2

ANTROPOÉTICA DA INFÂNCIA

“Era ele quem erguia casa, onde antes só havia chão.

Como um pássaro sem asas, ele subia com as casas que lhe brotavam da mão.

Mas, tudo desconhecia de sua grande missão. Não sabia… Não sabia… Não sabia…

Mas um dia, foi tomado de súbita emoção…

E cresceu em alto e profundo, em largo e no coração…

E olhando suas mãos… ganhou a dimensão da poesia…“ (Vinicius de Moraes)

 

O menino e o mundo se encontram.

A infância com sua subjetividade nascente, com sua novidade inquieta, encontra-se com o mundo instituído, com normose social, com as violações institucionalizadas, com a prosa da dominação apagando a poética da vida.

Mundo estranho este. “O deserto avança” (Nietzsche). Em lugar da expansividade da vida, avançam processos de morte.

E aqui estamos nós, cidadãos e cidadãs do mundo, que decidimos pelo campo da educação e vamos traçando, neste nosso território, a destinação da humanidade.

Apenas começamos o chamado segundo milênio. Nascidos na modernidade, preparamos as asas para os vôos da pós-modernidade. Será um desvio em direção aos horizontes de humanização ou será a continuidade da exploração-destruição aceitas como naturais? Assim perguntam os olhares do menino sobre o mundo.

Será este um século de barreiras e destruição ou de horizontes e criação?

As tempestades assustam, mas a coragem prepara o enfrentamento. Estamos num momento da humanidade tão aberto à beleza e ao mesmo tempo coberto de vergonhosas atrocidades.

Numa humanidade permeada de sujeições, escravidão, dominações sobra pouco espaço para a emergência das pessoas e dos povos.

Quem não acompanha e não ouve a voz silenciosa e competente da infância, fará da educação um arranjo sofrível, um arremedo de pedagogia, um insulto à sabedoria que teima em vir ao mundo com outros olhares e outros recados.

 

O MENINO E O MUNDO:

UM ENCONTRO-CONFRONTO EM BUSCA DA SOLIDÁRIA REBELDIA

 

Para quem ainda não entendeu a diferença entre Ética e moral, aqui está: a vida pode tornar-se instituinte da sociedade, pode tornar-se critério de todos os critérios. O mundo instituído só consegue lidar com a moral e suas armadilhas, ao confundir o vigente com o legítimo.

É por isso que a criança passa invisível por este mundo de ouvidos atrofiados. Para o relevante diálogo com a infância há que garantir sua presença, seu recado, suas perguntas, seu olhar.

“Seu olhar, seu olhar melhora, melhora o meu” (Arnaldo Antunes)

O outro não pode ser anulado na sua possibilidade de existência material. O outro não pode ser anulado em seu potencial de expressividade simbólica. Há que construir  os espaços para a pronúncia da palavra que se faz carne e habita criativamente o mundo.

Se as palavras livres da infância vão sendo anuladas com a arrogância do excesso das palavras domesticadoras dos adultos, os olhares teimam em manter a liberdade provocativa.

O menino e seu mundo acordam os antigos meninos e seus mundos, por vezes adormecidos no sono do esquecimento, nas indestrutíveis, mas sufocadas, moradas da infância.

Como diz Fernando Pessoa.

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ver quem sou.

Mas, hoje, vendo que o que sou é nada,

quero ir buscar quem fui onde ficou”.

 

Não é este o tema do Rei Leão? Em dado momento, Simba acorda de sua desmemoria, percebe a norrmose paralizante e retoma seu projeto.

Não é este o tema da Africanidade hoje?

salvador/2016

 

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