O MENINO E O MUNDO

UMA POÉTICA DOS OLHARES E DOS DIREITOS EM TEMPOS DE ATROCIDADES NORMALIZADAS

Alê Abreu faz cuidadosa leitura do mundo e da infância

Quem conhece as obras do pensamento crítico da Escola de Frankfurt no século XX se surpreende com a capacidade de dizer sem palavras o que escreveram em centenas de livros pensadores com Adorno, Horkheimer, Marcuse, Walter Benjamin, Ernest Bloch…

Num pequeno opúsculo inaugural de Theodor Adorno e Max Horkheimer, Dialética do Esclarecimento, encontram-se provocações que dialogam com Alê Abreu:

– “É o progresso bem sucedido e não o seu contrário, o que traz a barbárie. Como é possível que, no auge da civilização, com as mais sofisticadas tecnologias, tenhamos as mais graves atrocidades e a produção da indústria cultural da insensibilidade?

Alê Abreu coloca, como fez Walter Benjamin, a fragilidade (infância) para compreender a perversidade travestida de normalidade.

O tema moral das pessoas más, igualmente presentes em todos os setores da sociedade, é tema fácil e abundante na indústria cultural anestesiadora: Existem os maus e os bons. Nós somos os bons e os outros são os maus. Como todos pensam assim… maus são sempre os outros que atrapalham nossos projetos! Maus são os moradores de rua, são os sem-terra, são os manifestantes, são comunistas, são os sindicatos, são os dos Fóruns Sociais Mundiais, são os lutadores e lutadoras pelos Direitos Humanos. Maus são os outros que contestam as ilusões transcendentais do progresso, do mercado…

Alê Abreu vai pelo caminho da Ética. Não é o caminho da Moral instituída. A Moral instituída é vigente e necessária, mas insuficiente para garantir a vida humana como critério. A Ética é sempre reserva crítica face à perversidade instituída e pretensamente legítima. A Ética é Ética da Vida, é a suspensão de toda a estabilidade que impede a expansividade da vida do outro. A voz do outro atingido pelas barragens do mundo já pronto (não só da Samaraco), é critério Ético que Alê Abreu propõe no olhar do Menino diante do Mundo.

Para esta tarefa ÉTICA, o caminho da ESTÉTICA é o mais fecundo.

Há que tomar não só o pensamento, a racionalidade, mas o sentimento, o afectus, a arte, o imaginário criativo. É no interior desta linguagem poética que Alê Abreu transita.

Não se trata de uma estética-espetáculo (Guy Debord).

Não se trata da obra de arte que proclama: “espelho, espelho meu, existe algo mais belo que eu?”.

Trata-se da arte conectada com a vida.

Trata-se da arte que nos pega.

Trata-se da mobilização da sensibilidade humana, da provocação das subjetividades para se deixarem tocar.

Trata-se de despertar homens e mulheres para a vivência intensa do mundo.

Trata-se da poética-pedagógica das pedras, dos rios, das cores, dos amores, das palavras, dos gestos, das estrelas, dos abraços, dos movimentos, dos traços, dos mistérios, dos projetos, dos olhares, das parcerias, das revoluções, dos sonhos, da música, das ancestralidades, do vir a ser comunitário.

Este é um sentimento perigoso que não rima com os olhares condenatórios, com o saberes dogmáticos, com os fazeres dominadores, próprios da racionalidade arrogante.

Alê Abreu brinca nos limites da razão, à beira dos abismos perigosos, arrepiando-se com os riscos, descoisificando a estabilidade do mundo.

Sigamos os traços criativos deste menino brincante.

salvador/2016

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