Achadouros do Manuel de Barros

 

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade.

A gente só descobre isso depois de grande.

A gente descobre que o tamanho das coisas

há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas.

Há de ser como acontece com o amor.

Assim, as pedrinhas do nosso quintal

são sempre maiores do que as outras pedras do mundo.

Justo pelo motivo da intimidade.

 

Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa.

Aquilo que a negra Pombada,

remanescente de escravos do Recife, nos contava.

Pombada contava aos meninos de Corumbá sobre achadouros.

Que eram buracos que os holandeses, na fuga apressada do Brasil,

faziam nos seus quintais para esconder suas moedas de ouro,

dentro de grandes baús de couro.

 

Os baús ficavam cheios de moedas dentro daqueles buracos.

Mas eu estava a pensar em achadouros de infâncias.

Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal,

lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira.

Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro,

lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa.

 

Sou hoje um caçador de achadouros da infância.

Vou meio dementado e enxada às costas

cavar no meu quintal, vestígios dos meninos que fomos.

(…)

 Do livro Memórias Inventadas – A infância, do Manoel de Barros

 

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