Arte: diante da verdade verdadeira

Verdade, bondade, beleza e harmonia da unidade são referências presentes em tudo o que vivemos, fazemos, cantamos, sonhamos, traçamos, elaboramos, sofremos, buscamos, transformamos.

O que é verdadeiro virou sinônimo do que é exato, do que é comprovável, do que é científico. O que é verdadeiro é aquilo que vira informação para acumular, que cala a boca dos que não sabem. O que não é cientificamente verdadeiro é desqualificável. Só vale o jogo da ciência com imposição de suas regras dogmáticas.

Dizem que a mentira e o pouco conhecimento são inimigos da bondade, da beleza e da unidade. Pode ser. Às vezes. Fernando Pessoa tem alguma discordância e traz a não-verdade verdadeira para contestar a verdade verdadeira que quer reinar absoluta, para subverter as visões iluminadas que, com tanta luz, cegam.

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor,

A dor que deveras sente.

O poeta nos instiga a pensar que talvez, na história ocidental, tenha sido o tipo de verdade, a verdade absoluta, a verdade que se basta, a verdade que não dialoga com o sentido da vida, a verdade separada da própria vida, o que impediu a fluidez da arte, do amor, da justiça e do direito para toda a fragilidade humana e cósmica. O excesso de verdade virou arrogância contra as frágeis existências buscadoras dos encantamentos relacionais.

A experiência poético-espiritual de Pedro Casaldáliga o faz reconhecer que as irmãzinhas de Jesus que viveram desde a década de 1950 entre os poucos indígenas Tapirapé, praticamente em extinção, foi a inspiração para o atual avanço de toda a luta indígena no Brasil: “nascemos à sombra luminosa das irmãzinhas de Foucault”.

No entanto, há uma hegemonia crescente da iluminada imperialização da cultura: tudo virou coisa para examinar, números para contabilizar, informações para impor, medidas para controlar, sistemas para dominar.

“Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. Os sabiás divinam”. É o alerta do poeta Manoel de Barros, um brincante com as palavras. Verdade, bondade, beleza e integridade da criação precisam se encontrar, confrontar-se, conversar, implicar-se, com muitos jogos. Não valem só as regras da verdade.

Os artistas que emergem de dentro de nós e dos povos nos convocam a mudar as regras, flexibilizar os jogos que derrubam os fracos, os jogos que tornam os humanos apenas úteis, os jogos que escondem destruições atrás da imposição de suas verdades absolutamente verdadeiras.

O que é a verdade? O que é o verdadeiro?

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