Educação e reduções amesquinhadas

Somos humanos encontrando-nos com irmãos e irmãs nossos na aventura relacional de nos construirmos.

O ser humano vive, pensa, fala, decide, interpreta, concorda e discorda, erra e acerta, canta e modela, profetiza e toca, compõe e desenha, ama e pinta, dança e dramatiza. Assim recriamos a natureza e inventamos a nós mesmos.

Como na Arca de Noé, enquanto os animais são levados, os humanos se levam, destinam-se para o futuro a ser inaugurado criativamente.

Educar significa tirar de dentro o impulso e a direção da caminhada. Tirar de dentro, pode ser uma ação manipuladora ou até mesmo violenta, como quem usa um sacarolhas.

‘E-Ducere’, do latim, é acompanhar, sem pressa,  o desabrochar que vem de dentro.

Educar é diferente de ‘In-Ducere’ que é arrastar para dentro; que é levar para um ponto já definido, como se a pessoa tivesse de fato escolhido. De ‘in-ducere’ vem induzir, e isto ainda não é educação.

Educar é diferente de ‘Se-Ducere’ que é conduzir para si. Daí vem seduzir que tem enovelamentos  afetivos importantes, está, não sem riscos, a meio caminho da educação.

Educar é diferente de De-Ducere que é trazer de fora para dentro. Nesta educação ‘bancária’, o já estabelecido quer se impor vitorioso sobre a singularidade pensada como domesticável.

Educar é diferente de Re-Ducere, que é apequenar o outro, que é reduzir a potência de vida ao tamanho das incapacidades das pessoas que operam a educação.

Educar, de E-Ducere, só tem a opção da saída. Trata-se de atuar no ponto de partida. Não define o percurso nem a meta de chegada. Dispõe com generosidade um mundo de repertórios que provocam as originalidades criativas.

Com-Ducere, trazer para fora de forma conjunta, é estar junto no caminho.

E-Ducere e Com-Ducere estão irmanados: decide-se caminhar juntos, desabrochando. Todos e todas tornam-se educadores aprendentes. Coisa que Paulo Freire aprendeu/ensinou: ‘ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho; os seres humanos se educam em comunhão’.

Educar não é manipular, mas assumir a arriscada aventura do caminho em conjunto fazendo brotar o que há de melhor em cada ser humano para que o trajeto seja prazeroso, para que o plantio seja abundante e a colheita compartilhada.

Com arte, educar torna-se como cuidar de um jardim. Educar não é como dominar uma cidade. Educar é aplicar a arte da jardinagem para a vivência comunitária. E nesta vocação para educar, cabem todos e todas.

Educador/educadora é alguém que constrói, busca e compartilha significados: vai desenhando sua vida, desenrolando seu mistério, fazendo-se mais, desabrochando. E faz isso na decisão de estar com outros inquietos construtores de seu projeto.

Educadores/Educadoras, construtores de compreensões, estão presentes, não para verem e serem vistos, avaliarem e serem avaliados, mas como. Interrogam-se, experimentam ser e viver, respondem, correspondem, compreendem e compreendem-se.

Arte-Educadores/Educadoras são incansáveis garimpeiros de sua riqueza interior e das maravilhas escondidas no mistério de cada ser.

Arte-Educadores/Educadoras dizem muitas coisas, mas ao dizer, dizem muito sobre si, e dizem para si. Ao fazerem educação com grandeza de ânimo, fazem-se a si mesmos. Ao revelar os outros em sua beleza, revelam-se também na estética da sua existência. Ao fazer arte, fazem-se artistas, fazem-se obras de arte.

Arte-Educadores/educadoras não são os que sabem simplesmente falar ao outro. Falar ao outro pode ser um modo de não ouvi-lo. Na Educação fala-se com o outro. E aqui a fala do outro é acolhida em seu potencial de novidade, em sua possibilidade de surpresa. Abre-se a democracia da palavra que pronuncia os seres humanos e seus projetos.

Ser Educador/educadora é projeto. Lança-se para o ainda-não-pronto. Na provisoriedade inacabada de sua vida está a abertura para inventar um novo mundo.

 

“Quando se diz meta, quer-se dizer alvo, mas quando o poeta diz meta, pode estar querendo dizer o inatingível.’ (G.Gil)

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