Amor e arte: uma erótica desinstaladora

O amor vibra desde as entranhas ou será apenas um nome bonito para o consumo dos discursos vazios. Ouvir as vibrações da vida do outro é contagiar-se por sua alegria e seu itinerário buscante.

O amor é atraído e atraente. Ele exerce irresistível sedução sobre a humanidade. Onde há amor, há força atrativa. Onde há amor, há inquietação, deslocamento, busca. Por esse motivo, Eros é a possante energética da destinação antropológica. (…) Venha a paixão erótica que impulsione o ser humano a criar nova terra e novo céu. Só a humanidade apaixonada poderá concretizar a destinação antropológica. Paixão não é instinto cego ou desvairado. Nem é irracionalidade. Paixão é a veemência do amor inteligente que encabeça nova fase evolutiva, destinada a elaborar mundo igualitário e solidário, onde o Ser Humano seja, efetivamente, centro, fim e medida. Seja a humanidade incendiada por paixão erótica que consiga suprimir o fosso das desigualdades, derrubar os ranchos da servidão e fertilizar as colinas, onde manam a justiça e a paz.” (Arduini, Juvenal. Destinação Antropológica, São Paulo: Paulinas, 1989, p.266)

Ouçamos os sons do presente e dos projetos. Ouçamos os sons dos medos e das esperanças. Misturemos tudo e transformemos num poema. Aí, em comunhão, podemos comer juntos os dons criativos, como sacramento da vida terna e eterna.

Estamos, porém, invadidos pela mercantilização da vida que agride a dignidade, a erótica e sacralidade da natureza e da humanidade. Há que contestar o uso e abuso da palavra amor, como tentativa de lhe roubar a rebeldia. Encontramos por aí, o amor capturado, o amor domesticado, o amor narcísico ao idêntico, o amor de troca que exige gratidão e cobra retorno previsível. E este anti-amor conturba e contamina os afetos. O amor não é esta falsidade revestida de cenários midiáticos e cálculos de vantagens.

No contraponto da hegemonia dos cálculos de utilidade, aqui estamos nós compondo e percorrendo novos e antigos caminhos da gratuidade relacional. A afetividade ética e esteticamente responsável, lida com os saberes e as artes na temperatura da vida e tensiona as teias da sociedade para práticas transformadoras recusando a captura do campo do amor pela sociedade do espetáculo, pela esperteza utilitária, pelo mau gosto dos abusos da imagem e pela afirmação narcísica das vaidades pessoais. O amor que desencadeia afetos verdadeiros acontece no risco da aventura e enfrenta as voltas e reviravoltas da barbárie.

A itinerância e a teimosia nos fazem buscar outros territórios da subjetividade, transitar por outras florestas da plural diversidade, libertar o coração das capturas do imaginário, promover ações subversivas dos desejos e inaugurar campos novos da existência social.

Os afetos clamam por espaço, reclamam por uma abertura do humano em face da mortífera injustiça instituída.

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