O rosto, a ternura e os caminhos

 

De onde vem a disposição de contrapor os afetos, em sua fragilidade gratuita, aos ditames poderosos da eficiência mercantil?

Vem do amor que se deixa comandar pelo rosto do outro e que não se sustenta vitorioso nem na experiência e nem nas teorias. O rosto do outro se dispõe, em sua nudez, à violação e ao acolhimento. Aqui está a prova de fogo do amor. Dostoievski diz que “somos todos responsáveis por todos, e eu mais do que todos” (os irmãos Karamazovi). Este desafio à responsabilidade é a marca infinita do amor diante do outro, que só desenha sua obra de arte em nós quando descemos de nosso poder de poder, de nossa soberania arrogante, de nossas torres de controle.

O amor, terno e rebelde, não tem a força do poder que domina e domestica, mas tem a fecundidade geradora de mundos novos. O sem-poder do amor produz a vida que a força do poder não pode jamais criar.

O amor abre caminhos, coordenando passos construtivos, e dispersando passos destrutivos. O amor vitaliza o pensar, o caminhar, a arte, o movimento, o trabalho, os debates e embates, não aceita a condenação e processos acusatórios, mas coloca-se na produção da liberdade, da fraternidade, da justiça, do aprimoramento pessoal e comunitário, da solidariedade sem fronteiras. O amor nos encaminha para a plenitude de nossas melhores aspirações.

Para esta bio-diversidade afetiva que somos, há que escutar muito, superar intransigências, romper intolerâncias, modular convicções. Mente e coração precisam conversar melhor. Há que buscar uma lucidez amorosa, especialmente quando os desacertos da vida ameaçam desencadear tempestades. Para que os apelos à sensibilidade afetiva não se transformem apenas em amortecimentos ilusórios dos conflitos, mas garantam uma permeabilidade fecunda, há que pensar amorosamente.

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