Arte e eco ternura

Na convivência com o outro vamos tecendo nossa sensibilidade ética e estética. O que é bom e o que é belo vão enchendo de encantamentos os tempos e lugares em que transitamos com nossos sonhos, nossa palavra, nossa expressividade, nossos desejos, nossa autoria, nossa autonomia.  Enquanto parte da humanidade se parte centrada no indivíduo com sua gana excludente, de outro lado os braços, os olhares, os abraços e os cantares produzem o nós, tramam a comunidade, inventam a solidariedade.

A palavra, a pintura, o jogo, a escultura, os contos, a música, o texto, o saber, as vivências coletivas, a dança, a poesia, a dramaturgia, as imagens, a pedagogia, a política, a celebração, o movimento, o encontro, a culinária, os jardins cultivados, os estudos nos grupos, a assessoria, as ervas compartilhadas… quantos acontecimentos! Quanta plural beleza. Das janelas da arte, da estética, da beleza, apreciamos a realidade com outros olhos. A beleza comunitária nos humaniza. Olhos educados à beleza, corpos lançados à arte, criam a percepção de tal dimensão em todas as coisas.

Nossa sensibilidade exercitada na convivência com o outro tem fome de beleza, quer sentir a arte, quer viver artisticamente, quer ser tocada com ternura, quer tocar as estrelas, quer experimentar a mais cotidiana e profunda compaixão com a fragilidade humana.  O pluralismo das expressões tem sido a marca de muitas práticas de educação popular na vivência do Ecumenismo, do Diálogo Inter-religioso, nas temáticas, nas vivências celebrativas, nos estudos, nas modalidades artesanais, na partilha de experiências, na construção coletiva, nos serviços, na acolhida, na emancipação da palavra e do gesto… ampliam-se mais e mais as interfaces do acontecimento estético formativo. O corpo vivente da sabedoria humana não está contido em nenhuma linguagem e nenhuma linguagem em particular é capaz de exprimir todas as modulações e intensidades da compreensão humana[1]

Cada expressão do viver-saber pode dizer com Ferreira Gullar: “Se não existisse a poesia, as grandes verdades não poderiam ser ditas”. Se não existisse a pintura, o teatro, o cinema, a dança, o beijo, o abraço, o intercurso sexual amoroso, os segredos da intimidade, o brinquedo, a pedagogia, a festa, as cores, as rezas, os ritos, os símbolos, os encontros, as subjetividades transitantes, os olhares, a música e tudo assim tão misturado…Se não existisse toda essa mediação da beleza, os grandes significados não poderiam irrigar e fertilizar a vida humana. Cada expressão, porém não pode pretender anular as outras, sob o risco de atrofiar a exuberância da vida-arte.

Assim a prática coletiva dos Cursos da Rede do Cuidado é uma expressão artística atravessada pela vida da comunidade humana em solidariedade criativa. A partir de uma estética da comunicação torna-se possível pensar uma ética cidadã. Um pouco de tudo isso vivemos na incerta, arriscada e desafiadora história deste planeta no início do século XXI.

E quando partimos, de volta para nossos outros mundos, vamos deixando companheiros, experiências, modos de celebrar, amores, ambientes, palavras de sabedoria, canções e danças contagiantes, sabores, lares, abraços, acolhimentos. Antes que o horizonte do acontecimento vivido desapareça, ainda esticamos o olhar para trás. Na dor da ruptura, aprendemos o desprendimento e assumimos o risco dos novos caminhos. Produzimos agora os caminhos com as presenças que nos lançam: não somos mais só nós, mas somos um com tantos irmãos e irmãs de caminhada. Nesta poética, mudamos até a gramática da regência: eu estamos em movimento solidário. E já a construção do mundo ganhará as dimensões do ser humano novo, apontará para o amanhecer de um mundo justo. A construção de um mundo novo será enraizada na esperança que é mais forte que os riscos. Como viver é impreciso, traçamos novos itinerários Continuamos os caminhos que outros não puderam terminar. E nós também só podemos ver a aurora dos novos tempos, na arte da provisoriedade fecunda.

 

[1] POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, 1998,p.38

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